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Coronavírus: ‘vivemos de doações de comida’, diz dona de circo que esteve em Boa Viagem

em patrocínio ou ajuda estatal, dona Cida e os artistas do Circo Fantástico sobrevivem graças a cestas básicas e água doadas pela comunidade. Os ônibus onde mora a trupe estão estragados pela falta de manutenção

24/07/2020 14h47
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Por: Redação
Sem patrocínio ou ajuda estatal, dona Cida (foto) e os artistas do Circo Fantástico sobrevivem graças a cestas básicas e água doadas pela comunidade. Os ônibus onde mora a trupe estão estragados pela falta de manutenção. Foto: Alex Costa para o Intercept
Sem patrocínio ou ajuda estatal, dona Cida (foto) e os artistas do Circo Fantástico sobrevivem graças a cestas básicas e água doadas pela comunidade. Os ônibus onde mora a trupe estão estragados pela falta de manutenção. Foto: Alex Costa para o Intercept

CIRCO FANTÁSTICO FAMÍLIA VILAR rodou diversas cidades do norte e nordeste do Brasil por 15 anos até estacionar em Ipu, a 296 quilômetros de Fortaleza, quando o coronavírus chegou ao país. Forçada a interromper as apresentações, a trupe teve de se dispersar. Para não morrerem de fome, a maioria dos 28 integrantes voltou a viver com suas famílias, em busca de ajuda financeira. Hoje, restam 15 no acampamento, que se mantêm com doações da comunidade. A situação do circo é um retrato da situação de penúria dos grupos de artistas de rua, que não contam com patrocínios e dependem exclusivamente das apresentações.

Dona do Circo Fantástico, Maria Aparecida da Silva Vilar, a dona Cida como é conhecida, diz nunca ter enfrentado uma crise financeira tão grande como a de agora. “Eu amo o circo. Eu estou muito triste com tudo o que está acontecendo. Não temos apoio de nada [do governo], só de Deus e da população”, me disse.

A tenda permanece montada como nos bons tempos, mas vem sendo corroída pelo desgaste natural. Os artistas remanescentes vivem em ônibus precários, carentes de manutenção. Apesar das dificuldades, dona Cida se agarra a esperança que arte pode operar transformações por onde passa. “Já reergui esse circo com o apoio dos meus filhos e dos artistas, e a gente pode fazer isso de novo”. Ela contou sua trajetória ao Intercept.

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Quinze dos 28 integrantes do Circo Fantástico permanece em Ipu. A maioria voltou a viver com suas famílias, em busca de ajuda financeira.

 

Foto: Alex Costa para o Intercept Brasil

 

‘HÁ QUATRO MESES, eu fui informada que o meu circo não poderia mais abrir as portas. Eu fiquei desesperada. Passava noite e dia chorando. Antes da pandemia, as coisas já não estavam tão boas. O Circo Fantástico é um circo humilde. A gente não tem patrocínio como os grandes circos por aí. Já estava muito difícil se manter, e agora ficou pior.

Para você ter uma ideia, fomos informados sobre a quarentena um dia antes de um evento onde venderíamos dois ingressos a R$ 5. O valor normal é R$ 10 por pessoa. A procura pelo espetáculo estava muito baixa, e os artistas estavam sem pagamento. Mas não foi possível fazer. Meu primeiro pensamento foi: como as 28 pessoas que vivem aqui vão sobreviver?

Alguns artistas conseguiram ir para casa de parentes, mas 15 deles ficaram no circo. Nos primeiros dias de fechamento, eu estava inconsolável. Meus filhos me levaram ao médico que me receitou um calmante para eu conseguir dormir. Eles ficaram com medo de que eu passasse mal, já que sofro de pressão alta e diabetes. Desde então, já se passaram quase cinco meses em que estamos estacionados em Ipu, no interior do Ceará, sem poder trabalhar e sem nenhum apoio do governo.

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Toda a sexta-feira, um morador de Ipu doa água potável aos artistas, que vivem em ônibus.

 

Foto: Alex Costa para o Intercept Brasil

 

 

Hoje temos arroz, feijão e cuscuz para comer, graças à comunidade que tem nos ajudado com cestas básicas. Ganhamos o gás. Um rapaz tem doado água potável toda sexta-feira. A loja ao lado do nosso acampamento tem cedido água para tomarmos banho, lavarmos as nossas roupas e também para cozinhar.

 

Como a intenção não era ficar tanto tempo em uma mesma cidade, nem pensamos em pedir a ligação da água.

 

 

Acredito que não cortaram a nossa luz ainda devido à pandemia, já que tenho mais de R$ 2 mil de contas para pagar em atraso.

 

Além disso, falta dinheiro para arrumar o motor do ônibus. Todos os nossos veículos precisam de revisão e reformas, afinal é onde a gente mora também. Sem dinheiro, a gente vai adaptando. No ônibus em que moro, já não funciona mais o ar-condicionado. A água que vazava dele afetou a madeira do local onde eu guardava as minhas roupas. Para suportar o calor, eu consegui um ventilador que deixo ao lado da minha cama. A parte elétrica do banheiro também não funciona mais.

Sem recursos, também é impossível investir na estrutura do circo. A lona já está rasgada. Não tenho como comprar uma nova ou o tecido para que eu mesma costure e improvise algo. Costumo dizer que o Fantástico pode não ter estrutura, mas a gente sabe encenar. Nosso espetáculo é incrível. Os artistas são bons. Um dos meus filhos já fez parte de grupos circenses na Europa e na China. Temos conhecimento. Repito: somos bons artistas!

Este é o momento mais difícil em 15 anos de administração do Circo Fantástico. Quando o meu marido me traiu e foi embora com a antiga cozinheira do circo, ele levou metade de toda a estrutura. Eu tinha 45 anos. Ele me deixou com os nossos seis filhos e o desafio de reerguer o circo. Muita gente não acreditava que eu conseguiria. Na ocasião, eu cheguei a viajar caminhando, transportando as coisas no lombo de um burro. E eu consegui, porque eu podia trabalhar. Mas agora eu não sei o que fazer, me resta contar com a fé em Deus e com a solidariedade do povo enquanto não posso abrir as portas.

 

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Ar-condicionado do ônibus onde mora Dona Cida estragou, e a água que verteu do vazamento molhou seu armário.

 

Foto: Alex Costa para o Intercept Brasil

 

 

Uma história construída na estrada

Quando eu era criança morava em Belo Jardim, Pernambuco. Vivia com a minha mãe e minhas nove irmãs. Uma delas se apaixonou por um artista de um circo que havia chegado à cidade, e resolveu fugir com ele. Eu estava encantada com o mundo circense e fui atrás dela. Eu tinha 12, e ela 14 anos. Minha mãe descobriu a primeira tentativa de fuga e pediu para um parente policial prender nós duas. Além disso, a polícia deu 24h para o circo ir embora da cidade.

Ficamos dois dias presas, mas nem isso me fez desistir. Uma amiga me deu o dinheiro e peguei o trem e fui atrás do circo, que estava na cidade vizinha. Minha irmã chegou dias depois. O Juizado de Menores encontrou a gente, mas minha mãe desistiu de nos levar de volta para casa.

O namorado da minha irmã disse que cuidaria de nós, mas não foi o que aconteceu. Eu tinha 13 anos quando ele me entregou ao dono do circo, que, na ocasião, tinha 36 anos. E vivi como esposa dele até os meus 45 anos, quando ele partiu. Logo, me tornei trapezista, malabarista e apresentei espetáculos, mas nas horas vagas ficava trancada na casa dele.

Aos 15 anos engravidei do meu primeiro filho. Aos 25 anos, eu já tinha cinco filhos com ele. Dois deles eu perdi ainda bebês por complicações de saúde. Na estrada com o circo, adotei outras três crianças de diferentes famílias que nos abordaram sem ter condições de ficar com elas. Todos foram criados no circo.

Minha irmã permaneceu no circo apenas dois anos. Depois que ela foi embora, voltei a ver alguém da minha família novamente 10 anos mais tarde quando o circo estacionou em uma cidade próxima a Belo Jardim. Meu marido me mantinha presa em casa. A saudade era tanta que eu o enfrentei. Lembro de ter dito: é isso ou divórcio. E ele permitiu que eu fosse. Minha mãe achava que eu estava morta. No dia que ela me viu, a emoção foi tanta que desmaiou.

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Todo dia, um morador de Ipu entrega sacolas de alimentos à trupe remanescente.

 

Foto: Alex Costa para o Intercept Brasil

Meu marido era muito bruto. Sempre que ele bebia, batia em mim. E as crianças viam toda essa violência. Até que resolvi que as coisas seriam diferentes. Deixei um cassetete escondido em casa e revidei. Bati nas costas dele e ele caiu. Nesse dia, eu estava com 30 anos, olhei nos olhos dele e disse que ele jamais me bateria de novo. E ele nunca mais tocou um dedo em mim.

Graças a ajuda de uma amiga consegui organizar meus documentos e financiei uma casa pela Caixa Econômica, em Paracuru, cerca de 1h30 de Fortaleza. A preocupação dos meus filhos era que eu não tivesse um lugar na minha velhice. Já são seis anos pagando R$ 514 por mês – ainda faltam 24 anos. Quando a quarentena começou, a pessoa que alugava o imóvel anunciou a saída. Foi outro desespero para mim. O aluguel era o valor da parcela. Mas Deus abençoou e consegui outro inquilino. Ainda posso sonhar com a minha casinha, que um dia vai ser um lugar de parada para toda a minha família.

Eu ainda quero rodar com o meu circo. Eu sei que as coisas estão difíceis, mas acredito que vamos sair dessa. Antes de ir embora de Ipu, espero ter condições de fazer um grande espetáculo gratuito em agradecimento a todas as pessoas que nos ajudaram. Dinheiro eu não tenho, mas eu sonho bastante.

Por agora, peço a Deus para me proteger dessa doença. Não quero morrer sozinha, distante de tudo o que eu mais amo. Já disse para os meus filhos que, quando eu partir, quero ser velada no Circo Fantástico, depois de um lindo espetáculo. Porque minha vida é o circo!

 

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